Hoje é um dia especial, Dia Internacional da Mulher, dia que mais do que festejar e presentear, é dia de repensar sobre que tipo de sociedade nós queremos ter, machista misógina? Ou igualitária para todos os gêneros? Para refletir sobre estas questões nós do Portal Dia Notícia preparamos um presente especial para você mulher, entrevistamos a nossa conterrânea Professora Kety C. De March, para falar melhor sobre a importância deste dia. Professora Kety C. De March é graduada em História pela Unicentro e mestre e doutora em História pela UFPR, tendo desenvolvido pesquisas na área dos estudos de gênero, masculinidades e feminilidades. Atualmente é professora do departamento de História da Unicentro.
Portal Dia Notícia- Qual é a origem histórica desta data?
Profª Drª Kety de March- Olá Leandro, a versão mais comum para o surgimento de um dia dedicado às mulheres é vinculada à ocorrência de um incêndio numa fábrica de tecidos em New York. A data de ocorrência desse incêndio é também controversa. Alguns autores consideram que tenha ocorrido em 1857, outros consideram que tenha ocorrido em 25 de março 1911, incêndio esse que vitimou 146 pessoas, quase todas mulheres. No entanto, a data da ocorrência desse incêndio específico não é tão relevante quanto o simbolismo que esse acontecimento possui para pensar o que levou a um determinado grupo lutar por um dia destinado às mulheres. Pesquisadores da área falam a respeito da existência de um dia da mulher desde 1909, atrelado à greves trabalhistas nos Estados Unidos e que se espalharam por outras regiões do mundo, como a Itália por exemplo. Devemos lembrar que período compreendido entre o final do século XIX e início do XX é marcado por condições de trabalho muito ruis nas fábricas. Nelas trabalhadores possuíam jornadas de trabalho entre 12 e 16 horas diárias, considerando seis dias de trabalho completos. Muitas crianças eram empregadas na mesma condição dos adultos, mas com salários inferiores. Além disso, não possuíam direitos trabalhistas, nem qualquer política de estado de bem-estar social. No caso das mulheres, principal força de trabalho da indústria têxtil, os salários eram muito menores do que os destinados aos homens e as fábricas não possuíam condições de salubridade e segurança. Eram frequentes os acidentes com morte. O incêndio de 1911 teria ocorrido justamente pelas péssimas condições da fábrica e pelo fato das trabalhadoras estarem trancadas dentro da fábrica quando o incêndio começou, impedindo a fuga.
Ainda em 1909, mulheres vinculadas ao movimento socialista de mulheres, ao definirem a ocorrência de uma greve geral nos Estados Unidos, tiveram a ideia de que um dia de paralisação seria destinado às mulheres. Isso aconteceu dois anos antes do incêndio em NY. A data não era oito de março, nem mesmo era fixa. Em 1910 Clara Zetkin propõe a permanência de uma data para as mulheres. Em 1917 um grupo de operárias tecelãs entrou em greve na Rússia e deu início ao conhecido movimento da Revolução de Outubro.
Essas mulheres requeriam direitos básicos de trabalho, como a equiparação salarial aos homens. Muitas delas compuseram a primeira onda do movimento feminista e passaram a requerer também o direito ao voto e a poder receber educação formal em escolas, a exemplo do que acontecia com os meninos. Eram tempos em que mulheres pobres eram exploradas nas fábricas e não possuíam direitos sociais, enquanto mulheres mais abastadas eram impedidas de exercerem afazeres em espaços públicos. Os principais manifestantes que buscavam direitos sociais eram de movimentos de esquerda e consideravam que dar visibilidade a questões que consideravam específicas das mulheres, poderia interferir e enfraquecer os interesses coletivos. Essa perspectiva perdurou nesses movimentos até a década de 1960 em que a segunda onda do movimento feminista adquire mais força e passa a reivindicar a lembrança da luta das mulheres por direitos. Na década de 1970 então é instituído pela ONU o dia 08 de março como marco da luta das mulheres, o Dia Internacional das mulheres.
Portal Dia Notícia- Professora, para você qual é a importância de se comemorar este dia?
Profª Drª Kety de March-
Leandro, o dia internacional das mulheres não é uma data que a meu ver seja para receber flores e carinho, é um dia para mobilização, para recordar do processo de luta das mulheres pelo reconhecimento de direitos básicos. É um momento para que a sociedade reflita sobre as desigualdades ainda existentes e formas para superá-los. No entanto, o que vemos é o uso mercadológico dessa data. Não há nada de errado em presentear uma mulher neste dia, mas mais importante que um presente material, seria essa mulher receber apoio para as demandas que necessita. Reconhecimento do direito a dispor do próprio corpo, à uma nova perspectiva sobre a maternidade sem que a mesma se configure em obrigatoriedade, a equiparação salarial a homens que exercem as mesmas funções e possuem a mesma qualificação, a rever a posição dessa mulher em relação aos cuidados domésticos, afinal, as mulheres continuam a exercer tripla jornada. Esse dia é um marco de luta por direitos ainda não alcançados.
Portal Dia Notícia- Houve muitas conquistas dentro do movimento feminista desde seu ínicio, porém, ainda existe muito a que se alcançar. Que tipos de problemas as mulheres ainda enfrentam em nosso tempo?
Profª Drª Kety de March- O movimento feminista tem sido alvo de ataques nos últimos tempos e isso me entristece principalmente porque grande parte desses ataques demonstram um profundo desconhecimento do movimento. As feministas surgem de uma necessidade básica de reconhecimento de direitos num momento em que nossa sociedade considerava as mulheres como seres irracionais e incapazes conforme o próprio Código Civil brasileiro de 1916, por exemplo. As mulheres não podiam trabalhar sem a autorização expressa do marido, do pai ou de um juiz, pois precisavam ser tuteladas. Não podiam votar porque esse era um espaço puramente masculino, então a função delas era formar filhos educados para votar por elas. As mulheres não podiam frequentar escolas públicas e nem mesmo ter direito sobre seus filhos ou bens patrimoniais. Ao longo do século XX direitos foram sendo conquistados e outras demandas surgiram. Na década de 1960 essas mulheres foram às ruas para pedir pelo direito de utilizar contraceptivos e assim poder escolher o parceiro sexual e se seriam mães ou não. O movimento foi se ramificando e se ampliando. Desde a década de 1970 há muitas variações nesses grupos, mas há algumas pautas que são presentes a todos e ainda são objeto de luta: ainda é preciso lutar pelo direito das mulheres de não terem seus corpos violados por homens e serem julgadas culpadas pela violência por parte da sociedade porque dizemos que uma mulher estuprada teve culpa, falamos das roupas dela, do horário ou local do crime, isentando o violador como se ele fosse a verdadeira vítima de uma mulher sem caráter. Ainda é preciso lutar para que as mulheres possam exercer direitos políticos e se representem como candidatas na política. Ainda é preciso lutar pelo fim da violência de gênero afinal, muitas mulheres ainda morrem pelas mãos de seus parceiros, morrem porque homens se consideram seus proprietários, morrem porque o ciúme deve ser findado com sangue, morrem porque educamos homens a serem violentos para garantirem direitos que acreditam possuir sobre suas parceiras, ex-parceiras ou mulheres que se negaram a eles de qualquer modo. Ainda é preciso lutar para que as mulheres não passem por violência patrimonial e psicológica. Ainda é preciso lutar para que as mulheres possam escolher ter filhos e as que tiverem possam exercer a maternidade mesmo sendo trabalhadoras, sem que o fato de serem mães as impeçam de serem aprovadas em entrevistas de emprego, ou que passem a serem perseguidas porque tiveram uma licença maternidade. Ainda precisamos lutar por equiparação salarial, mesmo que a moda entre alguns pré-candidatos à presidência seja a de reafirmar que o mercado deva ser livre para pagar menos às mulheres, passando por cima de direitos sociais e trabalhistas irrevogáveis. Precisamos lutar pelo direito à aposentadoria de mulheres trabalhadoras rurais. A pauta é enorme e muito importante.
Portal Dia Notícia- No cenário no qual vivemos hoje, de muitos retrocessos em relação a direitos humanos e civís, e de vários casos de abusos contra as mulheres, que tipos ações governamentais e a própria sociedade civíl deveriam tomar para remediar esta situação?
Profª Drª Kety de March- Alguns planos foram traçados nos últimos anos pelo governo federal no que concerne a medidas que dizem respeito a um termo que tem se tornado cada vez mais famoso: o empoderamento das mulheres. Essas medidas, encontradas no Plano Nacional de Políticas Públicas para as mulheres, vão desde a ampliação da rede de delegacias da mulher, construção de casas para abrigar mulheres vítimas de violência, cursos de capacitação para que mulheres em situação de dependência financeira de parceiros violentos possam produzir sua própria renda, formação de profissionais mais capacitados a atender situações de violência observados em atendimentos na saúde, criação de secretarias da mulher espalhadas pelos municípios de maior envergadura, dentre outras ações. Ainda é preciso caminhar muito no sentido de garantir direitos básicos às mulheres, como ampliar essas medidas (muitas vezes apenas iniciadas), ampliar o entendimento e alcance de informações a respeito da Lei Maria da Penha e que homens enquadrados nessa lei passem por tratamento multidisciplinar para compreender que não há direito na violência. Que sejam reforçadas leis trabalhistas que garantam de fato a igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho e que empresas sejam punidas em caso de disparidade observada. É preciso educar a população para a igualdade, isso só se faz com políticas educacionais que prevejam a formação de professores e professoras conhecedoras das intrincadas relações de gênero e que a escola seja uma formadora para a vida que ensine matemática, português, história, mas também respeito às diferenças.
Portal Dia Notícia- Professora, última pergunta, que mensagem você deixa para as Mulheres leitoras do Portal Dia Notícia?
Profª Drª Kety de March- Mulheres, lutem por seus direitos. Procurem saber sobre eles. Procurem ajuda se estão vivendo uma situação de violência (seja ela patrimonial, sexual, física ou psicológica). Mulheres, apoiem outras mulheres, não as julguem. Mulheres, aproveitem o dia 08 de março para fazer um balanço a respeito das relações em que estão inseridas: elas são justas e igualitárias? Se não são, como podem ser? Qual meu papel para a mudança de uma realidade tão desigual? Como posso contribuir? Vamos deixar de lado a pós-verdade que nos agrada e procurar saber mais sobre o que nos cerca.